Uma luz que não se apaga

11 set, 2009

lampada_fluorescente

No último ponto da Rua Guaicurus, tradicional ponto de engarrafamento de coletivos a qualquer hora do dia, é possível embarcar em 57 linhas municipais. No final da tarde e início da noite, os passageiros que olham com certa angústia para os ônibus lotados podem encontrar alguma forma de relaxar. Estão à venda chocolates, balas, salgadinhos, refrigerantes, cervejas e até doses de vodca nas bancas montadas no local.

Aliás, banca não seria o termo adequado. Na verdade, há isopores, carrinhos e iluminação fornecida por lâmpadas fluorescentes, ligadas em fiações que sobem ao postes.

Numa sexta-feira à noite, perto das 21h, o vendedor tenta retirar os amendoins presos no carrinho. Mesmo com o ponto ainda cheio, seria a hora de ir embora? Sim. Numa ação rápida, chegam alguns homens de colete azul, acompanhados de guardas civis metropolitanos, que começam a tirar os alimentos expostos e a colocar o material em sacos de entulho. Menos de um minuto depois, uma espécie de picape coberta para no ponto de ônibus, acompanhada de duas viaturas que estacionaram do outro lado da rua. O dinheiro deixado sobre a mesa e as balas foram poupados.  Enquanto os produtos eram coletados, a embalagem de um pacote se rasgou, espalhando mini-pastéis fritos pelo chão.

“Por que não usam essa força toda pra pegar os bandidos? Com eles vocês não mexem”, disse uma mulher que esperava o ônibus. “Hoje vocês vão dar uma festa!”, provocou outra. Dentre as 40 pessoas presentes, pelo menos 10 expressaram em volume audível sua revolta com a apreensão, alguns se dirigindo diretamente para os agentes. O que mais se ouvia era que a atividade dos vendedores se tratava de um trabalho honesto e que não fazia mal pra ninguém.

Segundo a subprefeitura da Lapa, os alimentos recolhidos são encaminhados para doações a instituições de caridade, desde que estejam em condições adequadas.

Dois dias depois, domingo, uma pequena barraca e um isopor com bebidas estavam presentes no mesmo local, iluminados por outra lâmpada fluorescente.

Não estou aqui (mas volto logo)

10 abr, 2009

Neste semestre, estou contribuindo para o blog Cityperson, que faz breves retratos de pessoas que vivem em São Paulo e faz parte de um trabalho da universidade.

No segundo semestre, devo voltar a me dedicar ao Tempestivo.

Obrigado pela visita!

Luzes, Câmeras, Imaginação.

3 fev, 2009

paraisopolis

Colunas de fumaça sobem a partir das 17h e atingem vários metros de altura, o suficiente para serem vistos pelos helicópteros das emissoras de TV. Nesta hora, eles decolam em busca de qualquer coisa diferente na cidade que possa garantir vários minutos de comentários do apresentador. Outro dia, uma moto ficou presa no divisor de pistas da marginal. guarderreio? Guaard- rrail? O apresentador consome quase um minuto só para brincar com a pronúncia. O resto será usado para tentar imaginar como foi o acidente. Sim, imaginar, supor. Assim é o jornalismo local de fim de tarde em alguns canais.

Voltando às colunas de fumaça, que foi produzida por moradores de Paraisópolis, comunidade vizinha (mesmo) do bairro do Morumbi e de algumas emissoras, para protestar contra a morte de um homem pela polícia. Essa é a informação preliminar, levantada enquanto mais um carro era banhado em combustível. Até o fim do jornal (que dura 15 min) sairá o dado de que o elemento era um fugitivo da cadeia de Franco da Rocha, cidade que fica no extremo norte. Ele foi encontrado na zona sul da capital Impossível não pensar quantos outros “elementos perigosos” conseguem cruzar a cidade com tamanha facilidade no intervalo de um dia.

Logo, tivemos uns 8 minutos de imagens, muitas ao vivo, de informações preliminares e poucas respostas para as perguntas: porque os moradores fizeram o que fizeram e o que ganharam com isso? A vida do homem certamente não será restaurada. Os policiais pensarão duas vezes antes de abordar com violência um morador? A cidade vai passar a temer (o que é muito diferente de respeitar) os habitantes de áreas carentes?

E três horas depois, esses quase 8 minutos de imagens que mostram muito mas não explicam nada estão disponíveis em destaque na Internet, como chamada principal de um site de notícias vinculado ao canal que exibiu as imagens. Os momentos de tensão agora ficarão disponíveis por mais tempo, assim como as incertezas.

Deu Branco

25 jan, 2009

Chamadas grandes, muitas fotos em tamanhos pequenos, seja de notícias, seja de produtos. Um menu lateral com opções que variam pouco de um portal para outro. E muito, muito branco ao fundo. Estes são os atuais padrões de aparência dos maiores portais da internet brasileira.

Mesmo com visual mais limpo, as home pages atuais exigem uma boa conexão de banda larga para abrir no tempo esperado, já que contam com fotos que mudam depois de alguns segundos, chamadas para vídeos e mais uma série de outros detalhes que exigem computadores potentes e com a parte de software atualizada. Pena que nem todo mundo vive em uma Campus Party.

No ranking dos dez sites mais vistos do Brasil nos últimos três meses, cinco portais aparecem. O primeiro portal brasileiro na lista vem em 4°: o UOL. Globo.com vem em sexto e o Terra em décimo. Google lidera, seguido de Orkut e Windows Live. Mais dados em http://www.alexa.com/site/ds/top_sites?cc=BR&ts_mode=country&lang=none

Amor à camisa

15 dez, 2008

Anexo ao seu estádio, o  São Paulo planeja abrir  uma churrascaria, um salão de festas infantil e um cinema, segundo a revista Exame. No chamado Morumbi Concept Hall já funcionam uma loja de materiais esportivos e suvenires do clube e um bar temático. Ambos com vista para o campo.

O Corinthians não se importa que Ronaldo vá para outro time daqui a alguns meses. Ele pode sim, ir embora, desde que deixe os patrocinadores  que trouxe para o Parque São Jorge. A expectativa é aumentar o faturamento de 2009 em 35%.

Os clubes de futebol são empresas, cuja principal objetivo deixa cada vez mais de ser títulos e passa a ser a visibilidade, que traz vendas e lucros. O Palmeiras, que ficou 6 anos sem ganhar nenhum título, tem a sua camisa verde-limão, criada durante este jejum, como elemento de orgulho de seus torcedores.

O São Paulo criou lojas exclusivas de uma grife sua, a SAO, com produtos de luxo com suas cores e símbolos. Corinthians e Palmeiras fazem o máximo para turbinar a venda de camisetas, e começam a se aventurar por outras áreas, assim como diversos outros clubes. Mesmo assim, quase todos eles ainda fecham o balanço anual com prejuízos de milhões de reais e correm para pedir adiantamentos de direitos de imagem para pagar salários a tempo. Com má gestão, não há camisa 9 que salve.

Você vem sempre aqui?

26 nov, 2008

carteira1

Em quase todos os segmentos comerciais, o cliente que compra mais acaba ganhando alguma vantagem. Bancos criam segmentos prime, revistas dão brindes, rádios dão camisetas, etc.Tudo visa a fidelização dos chamados hard users, aqueles que consomem com intensidade o produto ou serviço contratado. (Algumas companhias telefônicas diminuem a velocidade dos clientes que trafegam dados demais na banda larga, mas aí já é outra história).

Estudantes e idosos são os indivíduos que mais possuem tempo livre, que pode ser facilmente ocupado com atividades culturais, como filmes, teatros, shows e tantos outros. Devido a emissão desenfreada de carteiras de estudante, esse público passou a ser mal visto pelos vendedores de cultura. O direito à meia entrada foi sendo estendido para outros grupos, como professores e funcionários públicos. No ano passado, diversas FMs ofereciam carteirinhas. Todo mundo estava virando “estudante”.

A emissão de passaportes de meia entrada deveria ser centralizada, até porque hoje qualquer entidade que comprove ser estudantil pode produzi-los. Há um debate ainda sobre as cotas de ingresso com valor reduzido, fixado em 40 % no projeto que foi aprovado no Senado. Nos shows e jogos em que são utilizadas, muitos passam a noite anterior na fila e quando chegam ao guichê só encontram tíquetes de valor inteiro.

Shows e jogos de futebol são tidos como momentos únicos, mas por que dormir na porta do cinema para ver um filme que já estava há dias disponível na barraca da esquina, onde não há cotas nem se pede documento com foto?

As listras e a bandeira

22 nov, 2008

cuba11

Fidel castro aparece em foto divulgada nesta semana, mais uma vez, usando o agasalho da equipe esportiva de Cuba. Veículos como Folha Online e France Presse classificam a vestimenta como “já tradicional”.

O traje provavelmente representa o orgulho do comandante em relação ao desempenho esportivo de seu país, que esteve nas últimas décadas sempre entre os melhores do mundo em diversas categorias.

Mas o que aparece neste traje tanto quanto a bandeira do país são as referências ao patrocinador. As três listras são marcas inconfundíveis da Adidas, fabricante alemã de material esportivo que pode ser considerada um símbolo do capitalismo alemão.

Como tudo é uma questão de ponto de vista, pode-se pensar que Fidel prefere usar o uniforme como prova de que a corporação se rendeu à superioridade que seu país, não-capitalista oficialmente, tem no esporte. Ou então que a ilha precisou se render a um patrocinador externo para manter seu nível esportivo. O freguês escolhe.

Não sou daqui

19 nov, 2008

Cena do filme
Não ter com quem contar na cidade em que se está é um grande desafio. E quando esta cidade é a sua  e você tem doze anos, é pobre e acaba de ver sua mãe ser assassinada, o que resta?

Para Sandro, em Ultima Parada 174, sobraram as ruas, onde conhece pessoas que irão tentar a todo momento levá-lo para os caminhos que consideram melhores. Ele se apega a essas pessoas, e quando vê que não pode mais contar com elas, sai sem rumo pela cidade e acaba pegando um ônibus, que acabaria o levando ao seu próprio ponto final.

O filme passa a sensação de se estar perdido num aglomerado urbano violento e confuso. O retrato das vias do centro do Rio onde meninos de rua moram é esteticamente excelente ao retratar a sujeira e até a iluminação com precisão similar à que se tem ao caminhar nestes lugares, embora a visão seja de alguém que os esteja vendo de fora, e quase nunca o olhar que eles tem dos passantes e dos demais elementos da cidade. Um local que Sandro não consegue, jamais, chamar de seu. Onde tenta sobreviver, mas não parece ter ao certo uma razão para continuar vivo.

Sandro não consegue seguir os conselhos que lhe passam, seja o de matar a vítima de assalto que não passa a bolsa a tempo ou que não se pode namorar uma prostituta. E, ao não seguir as regras impostas por aqueles que conhece, acaba criando problemas e é convidado a se retirar de suas vidas.

Última Parada 174 é um filme sobre aqueles que não conseguem achar seu lugar neste mundo, não apenas por já  começarem a vida com enormes problemas, mas sim por não entenderem as regras do jogo que é a vida.

A subida

13 nov, 2008

O final de semana promete ser mais um de comemorações para o Corinthians. Depois de conquistar o acesso à série A numa semana e o título antecipado na outra, resta agora a festa por receber a taça, o que deve ocorrer no jogo deste sábado, no Pacaembu.

Uma festa está sendo preparada no Vale do Anhangabaú com apoio de rádios e patrocinadores. Curiosamente, setores da torcida do São Paulo tem o costume de se reunir antes dos jogos num ponto ali próximo, o Largo do Paissandú, para irem ao Morumbi.

Antônio Roque Citadini, ex-vice presidente do time do Parque São Jorge, resume a situação do time grande que sobe de divisão depois de um rebaixamento, comparando-o a um churrasco que a família faz para um parente que saiu da cadeia: “A gente compra carne, cerveja, canta, mas tem vergonha de dizer o motivo”. A frase foi dita sobre o Palmeiras, e foi resgatada por opositores nestes tempos festivos para os alvinegros.
Neste ano ainda há grandes chances de times  como Fluminense e Vasco irem para a série B, que há muito tempo não é mais chamada no noticiário de segunda divisão. O descenso, pelo qual já passaram nos últimos anos Palmeiras, Grêmio e Atlético-MG, vai se tornando algo cada vez menos incomum.

Com isso, é criada toda uma nova estrutura comercial para adequar a divisão inferior, que ganha muito mais visibilidade e, conseqüentemente, patrocínio e recursos. Todos os outros 19 times que enfrentarão o famoso rebaixado sairão ganhando, assim como o próprio, que poderá fazer campanhas de marketing e negociar contratos de transmissão com mais liberdade. Afinal, seus milhões de apaixonados vão querer acompanhar cada passo deste momento de superação. A tristeza e a vergonha de um ano serão compensados com festas e orgulho no ano seguinte. Nada como voltar para onde nunca se devia ter saído.

Se esse banco fosse meu

12 nov, 2008

Material de divulgação - Caio

Em São Paulo, antes da implantação dos corredores de ônibus com pontos no nível da rua e porta à esquerda, os coletivos contavam em média com 43 lugares para se sentar. Os veículos, na maioria, tinham bancos de fibra, sem estofamentos e acabamento não tão caprichado como hoje.

Com a necessidade de colocação de duas portas a mais, a média de assentos passou para 38.  Destes novos veículos que chegaram no final da gestão de Marta Suplicy, um percentual considerável já possuía vaga para cadeira de rodas.

Este espaço se tornou obrigatório em todos os coletivos municipais a partir da gestão Serra/Kassab, onde lotações passaram a também dispor de espaço para cadeirantes. E chegamos a ter ônibus com 24 lugares para sentar, duas vagas para cadeira de rodas e setores reservados para cão-guia. Um quarto das poltronas fica reservada para idosos, gestantes, deficientes físicos e mães com crianças de colo, (ausentes pessoas nessas condições o uso é livre).

Vai ficando cada vez menor a chance de ir sentado. De poder usar a principal vantagem do ônibus, que é poder aproveitar o tempo da viagem para ler, ouvir música ou simplesmente relaxar depois de um dia inteiro fora de casa, uma vez que não é necessário dirigir.

É inquestionavelmente positiva a iniciativa da prefeitura de ampliar o conforto de pessoas com mobilidade reduzida. Entretanto, será que os outros usuários também não merecem um pouco mais de atenção da prefeitura?