
No último ponto da Rua Guaicurus, tradicional ponto de engarrafamento de coletivos a qualquer hora do dia, é possível embarcar em 57 linhas municipais. No final da tarde e início da noite, os passageiros que olham com certa angústia para os ônibus lotados podem encontrar alguma forma de relaxar. Estão à venda chocolates, balas, salgadinhos, refrigerantes, cervejas e até doses de vodca nas bancas montadas no local.
Aliás, banca não seria o termo adequado. Na verdade, há isopores, carrinhos e iluminação fornecida por lâmpadas fluorescentes, ligadas em fiações que sobem ao postes.
Numa sexta-feira à noite, perto das 21h, o vendedor tenta retirar os amendoins presos no carrinho. Mesmo com o ponto ainda cheio, seria a hora de ir embora? Sim. Numa ação rápida, chegam alguns homens de colete azul, acompanhados de guardas civis metropolitanos, que começam a tirar os alimentos expostos e a colocar o material em sacos de entulho. Menos de um minuto depois, uma espécie de picape coberta para no ponto de ônibus, acompanhada de duas viaturas que estacionaram do outro lado da rua. O dinheiro deixado sobre a mesa e as balas foram poupados. Enquanto os produtos eram coletados, a embalagem de um pacote se rasgou, espalhando mini-pastéis fritos pelo chão.
“Por que não usam essa força toda pra pegar os bandidos? Com eles vocês não mexem”, disse uma mulher que esperava o ônibus. “Hoje vocês vão dar uma festa!”, provocou outra. Dentre as 40 pessoas presentes, pelo menos 10 expressaram em volume audível sua revolta com a apreensão, alguns se dirigindo diretamente para os agentes. O que mais se ouvia era que a atividade dos vendedores se tratava de um trabalho honesto e que não fazia mal pra ninguém.
Segundo a subprefeitura da Lapa, os alimentos recolhidos são encaminhados para doações a instituições de caridade, desde que estejam em condições adequadas.
Dois dias depois, domingo, uma pequena barraca e um isopor com bebidas estavam presentes no mesmo local, iluminados por outra lâmpada fluorescente.





